sábado, 22 de dezembro de 2007

Lembranças

Chovia. O frio cortava-lhe não só sua pele, mas também sua alma.

Naquela calçada fria e úmida pela chuva, sentada lá estava. Uma lágrima em seu rosto descia, descia devagar, devagar e ao descer, a fazia lembrar do tempo em que era jovem, do tempo em que o frescor da juventude ainda não a tinha abandonado.

Lembrara-se, então, do caminho que tomara em sua vida. Lembrou-se de sua tenra adolescência e do primeiro beijo, da primeira transa e do primeiro pagamento.

Sentia o gosto do batom vagabundo que cobria seus lábios; sentia a sujeira que cobria sua pele e sentiu os bichos sua cabeça morder.

Também lhe mordia a alma a agonia do passado não vivido, ou melhor, desperdiçado.

Não se conteve. A paixão pela efemeridade a tinha corrompido; tinha destruído sua alma, seu corpo, seu futuro e agora apenas a calçada úmida, o frio, a sujeira e os bichos a acompanhavam.

Sentia que não muito mais viveria. Sentia que sua melancolia; sua agonia, com a chuva crescia.
Gritou. Desesperou-se e caiu em prantos, mas poucos puderam ouvir naquela calçada. Poucos passavam e naquele viaduto perto; poucos ficavam e sua tosse fazia-se mais audível que seu pranto.

O sangue subia-lhe a garganta; sentia-o em sua boca e neste momento, por um momento, lembrou-se das bebidas que por muitas vezes fizeram o caminho inverso.

A lembrança de si atormentava-lhe a alma. Chorava. Ria de nervoso; de desespero.

Lembrou do seguinte conselho: “minha filha, o tempo é o carrasco de toda e qualquer forma de vaidade, não o deixe iludir-te”. Chorou.

Onde estava a bela dama de bochechas róseas; de lábios vermelhos cor de sangue, que faziam parte dum rosto angelical?

Onde estava aquela menina que brincava no jardim, por entre margaridas e que sonhava com seu príncipe encantado?

Ela estava ali, na calçada, chorando, vertendo sangue e esvaindo-se; deixando um pouco de si naquela calçada úmida, gélida e sozinha, sem ter ninguém para segurar-lhe a mão quando partisse, sem ninguém para dizer eu te amo; sem ter; sem ser; simplesmente só em agonia e dor.

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