segunda-feira, 28 de setembro de 2009

... ao chegar

Entrou naquele ônibus e rapidamente caiu nos braços de Morfeu por minutos. Quando acordou, assim o fez, pelo aroma da brisa noturna que impregnava seus pulmões.

Abrindo os olhos notou a noite levemente morna e as pessoas ao seu redor, e a rua fora do ônibus.

As pessoas estavam cadavéricas, pálidas, sem vida, mas algumas conversavam entre si.

O ônibus não corria apenas se movia.

A rua estava cadavérica. Esqueletos de prédios, ruínas, silêncio, lua a brilhar.

Olhou pela janela e avistou o cemitério pelo qual sempre passava, mas desta vez foi diferente. Viu pessoas como as do ônibus: cadavéricas e com roupas antigas de diversas épocas.

Sentiu que algo acontecia ou não, porque teve a impressão de que aquele trajeto de poucos minutos estava levando uma eternidade.

Sentiu um aperto no coração; sentiu o vazio, mas não transpirou nas mãos como de costume.

Sentiu sua boca e seus lábios ressequidos.

Sentiu apenas o frio que agora tomava seu espírito.

No ímpeto de se levantar e dar o sinal para descer, sem nem mesmo ter chegado ao seu ponto, olhou para seu reflexo nas janelas do ônibus e se viu cadavérico.

Seu cabelo era ralo como a teia de uma aranha, os poucos dentes que lhe restavam estavam amarelos e apodrecidos. E na rua, viu o anúncio de comemoração de 300 anos de aniversário de sua cidade.

Entendeu. Estava morto há 200 anos.

Um comentário:

  1. Ricardo,achei esse foda. Um bom microconto, excelente. Anderson (seu amigo)

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