segunda-feira, 29 de março de 2010

Versos do Apocalipse

I

No início era o fogo, a dor, a ira
O arrependimento também presente se fez
A humanidade posta outra vez
De joelhos diante da vida

As chamas queimavam tanto
Que os corpos sombra faziam
E o mundo repleto estava
Repleto de tanto vazio

A fome, o mal, a peste, a desconfiança
Permeavam tudo e a todos
A escuridão das almas e dos corações
De tão escuros, uniam mesmo os não-irmãos

O brilho da morte era intenso
A laceração das vísceras
Os vícios e agonias
Apenas sequazes noite e dia

Queimava tanto que o queimar
Congelar parecia
O corpo a alma a mente
Enquanto toda desgraça acontecia

II

A noite acalmava a dor
Pois não se via tamanha agonia
Sentia-se, sabia-se das tormentas
Das pragas e pestes que andavam de dia

Não se via, mas o som da morte
Sentia-se o sangue correr
Não mais pelas veias
Mas por todo corpo escorriam

Fumaça, escuridão, dor
Chagas cheias de bichos
Feridas abertas
Putrefação à vista

Dejetos; horror fétido
Envolvia tudo e a todos
Pelos cantos, corpos
E todo tipo de resto

Não havia risadas, caminhadas
Somente gargalhadas ao começo
De um novo dia que seria
Horrendo, podre e sofrido como os outros

III

Assim era o começo
Assim era o fim de uma era
Era desperdiçada em vicissitudes
Em ganância, maldade e egoísmo

O fim era apenas o começo
Da famigerada punição a
Tudo e a todos
A vez da dizimação em massa

Sofrimento era a única
Companhia à vista e à mão
Lugar comum onde
Todos e tudo se amontoavam

Desgraças não eram nem às vezes
Vistas, tamanha a dor
A indiferença, agonia
Cegueira e tristeza sentidas

A morte já não era se quer
Uma saída ou entrada
Era um precioso milagre
Que poucos alcançavam

IIII

O tempo milagre fez
O mundo em sofrimento
Ainda gira e gira
E girando a dor prolonga-se

Prolonga-se e Prolongando-se
Sofre-se, mas aprende-se
Também com a dor e o horror a conviver
E um novo amanhã a nascer

A dor aproximou
O amor não mais se conhecia
Conhecia-se apenas
Aquele mundo de dor, agonia e sofrimento

Mas por linhas mesmo tortas
Escrevem-se histórias de derrotas e vitórias
De superação; de caminhos percorridos
Ou até mesmo de caminhos esquecidos

Nas entrelinhas lê-se todos
Os “mas”, os “porém” e os “se”
E tudo mais que escrito está
E o que velado foi

quinta-feira, 11 de março de 2010

Despatriado



As calçadas da morte já não mais são as mesmas,

As da vida, tão pouco

O gato preto já não mais assusta,

Corre assustado.

A lua tão pouco brilha,

Opaca tornou-se

Tornei-me opaco e inglório também.

Despatriado

Desprezível e

Desprezável

O frio não mais importa;

O calor, temo-o.

A vida apenas vivo,

Com medo de não mais refletí-la;

De não mais haver reflexo meu em espelho algum;

Com medo de não mais ser reconhecido

Com pavor de mim mesmo

Apavorado por mim, por tudo e por todos

Apenas seguindo;

Sendo apenas mais um