
Não sou, não quero e não serei suicida, apenas sinto e quero escrever como tal. É pensado que alguém de pouca instrução não é propenso ao suicídio, e talvez, essa seja uma verdade. Assim o digo, visto a maioria dos suicidas possuírem um alto intelecto. Acredito nisso, pois os sentimentos, conclusões e inferências que são feitas, vislumbradas e vivenciadas por um suicida e as quais, normalmente em cartas constam, referem-se a leituras de mundo e de fatos que normalmente possuem em si, uma complexidade que dificilmente alguém de pouca instrução teria a percepção das mesmas.
Enquanto escrevo essas linhas, tenho em meu coração, alma e mente um alto sentimento de autodestruição; uma agonia; um sentimento profundo de impotência e vislumbro um futuro vazio, ou melhor, um não-futuro, apenas um presente ausente.
Esses sentimentos tomam-me de tal forma, que apenas consigo ver em repetidas vezes, como se vivesse e revivesse o tempo todo, o começo de meu fim e não vejo fim para este começo, apenas uma contínua e aguda caminhada de torpe trajeto. Trajeto esse, que parece infinito e bifurcado a cada passo, e o pouco que se consegue ver dos caminhos oferecidos; das escolhas, não é bom. Incrivelmente, independentemente do caminho ou escolha tomada. A cada passo, o sentimento é que se anda em círculo com a diferença deste círculo por vezes se fechar, por vezes se abrir.
Em meu caminhar não há dia, só noite; não há calor, só frio; não há luz, só escuridão.
O calor que dá vida aos que vida tem, em mim, age como o sol que toca uma foto e com o passar do tempo a descolore de tal forma que um dia, ela se apaga. Assim também é a chuva que encharca minhas memórias ao ponto de me fazer afogar em mim mesmo enquanto desapareço perante a mim e perante aos outros.
Enfim, a tristeza que se apodera de mim, me consome, me “destorna” homem; faz com que me esqueça o que sou, o que fui e do que um dia tive vontade de ser...
Tenho enfim, talvez já o fim, presente em meus dias que ainda virão; tenho a certeza de que a morte virá e quero vê-la vestida de carmim, sorridente, aconchegante, apenas esperando por mim, como uma meretriz que seu homem espera.
Quero apenas encontrar conforto em seus braços, me sentir vivo, embora morto esteja.
Quero apenas me reencontrar comigo mesmo; quero apenas ser a sombra do que um dia já fui...

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