
Certa vez um homem, que nunca satisfeito consigo estava e que ao invés de grato estar com o que tinha e buscar o que não tinha, resolvera deixar tudo em que acreditava; todos os que o amavam e para longe, decidira ir.
Preso em seu próprio mundo de dúvidas e de falsas certezas, acreditava que o momento em que deveria aceitar sua derrota, que fora ocasionada por si mesmo, sendo ele vencido e vencedor, ainda não tinha chegado, pois em momentos de autoperseguição; de esquizofrenia, ouvia o seguinte comando: “adia”.
Entendera então, que o momento de se entregar a si próprio; de rever seus valores, certezas e dúvidas, ainda não havia chegado e sempre que pensava que o momento era propício, novamente ouvia: “adia”.
Em meio ao seu conflito; lutando contra si, assumindo em turnos, o bem e o mal, sentia-se sem chão e via em si apenas seu reflexo. Tornara-se tão somente o reflexo de alguém que outrora fora e que vindouramente poderia ser, mas se ateve a esta idéia.
Não conseguia mais se ver no espelho, pois não se reconhecia e sim, via como fora e deveria ser e sentia-se reflexo; reflexo de si.
Em meio a sentimentos distraídos, conclusões parciais e agonia presente e constante, e com seu pensamento atado a sua imagem refletida, ou melhor, a sua imagem real, mostrada pela exposição de seu reflexo, adormeceu certa vez em um ônibus em algures fora de seu lugar; seu país; seu reino e ao despertar abruptamente olhou para seu reflexo nas janelas daquele ônibus e se viu realmente e notou a palavra escrita: “adias”, desta vez encontrara na palavra escrita o “s” que lhe faltava na palavra dita em sua mente, e ao se virar para o oposto, para trás de si, viu a placa que dizia: “saída” e entendera que era o momento, ou melhor, que sempre fora o momento de se render a si; de vencer a si; de ser vencido e vencedor e trazer seu real para o mundo espelho e transpor seu reflexo para o mundo real...